Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Madrugada…

Uma vez mais, cá estou, a iniciar relatos que nunca sei onde vão parar. As aulas do primeiro semestre acabaram. Sentirei falta de dividir a sala com algumas boas surpresas... sentirei falta de algumas discussões acerca do cotidiano com um professor aqui, outra professora ali... mas, em si, não sentirei saudades das aulas.

Convenço-me, a cada dia mais completamente, que aulas não são mais o meu forte... quiçá, nunca foram. Entedio-me com a maioria delas... em verdade, ando deveras entediado... falta-me algo que sei o que... falta-me a vida que aqui não está...

Como se pode ter certeza de um relacionamento no qual o casal viu-se uma única vez, durante três dias? Um relacionamento que se iniciou por uma “coincidência”, incentivado, talvez, por um bug de um sistema de sites de jogos... em uma mesa virtual de sinuca... Como se pode ter tanta certeza de que é isso que queremos, que achamos, finalmente, quem amamos, que não haverá vida se não ao lado de quem se encontra distante hoje, como saber se é mesmo ele, como ter certeza de que é ela? Nunca poderei explicar. Nunca saberei responder. Só sei que a certeza está em mim, desde sempre, como se latente estivesse, esperando, aguardando, sorrateiramente, o estopim, o “start”, o estalo, o sininho que iniciasse a sequência, que demonstrasse, sem demonstrar claramente, que o amor bateu à nossa porta e que deveríamos dar uma chance a ele! E dei! E continuo dando! E darei! Farei esse amor florescer, tornar-se o jardim de minha vida, da vida dela, de nossas vidas.

Não posso me dizer seguro de tudo... algumas inseguranças insistem em me perseguir, e sei que me perseguirão por muito, muito, muito tempo...

Será que mereço mesmo ela? Conseguirei ser tudo o que ela um dia imaginou? Não sei, sinceramente, mas, com sinceridade maior que aquela que acompanha minha dúvida, farei de tudo para fazer de sua vida a mais completa de todas!

Confesso que me incomoda muito o fato de eu ainda ser um mero estudante, estagiário (pra não dizer escragiário), sem remuneração fixa, sem previsão de ganhos ao final de cada mês, dependo de ações que não se sabe quando terão um fim... dependendo da “bondade” de um “paitrão” quanto à porcentagem sobre os honorários que devo receber... ainda não posso assinar minhas próprias petições, não posso postular em juízo sem a assinatura de meu pai... devo engolir muitas coisas...

Sempre dou prioridade ao coletivo... sempre dou preferência ao pagamento de “dívidas” mais importantes, de meus irmãos, como a faculdade deles... e assim, sempre dando prioridade, nunca sou enxergado como tal... nunca tenho meus sonhos em primeiro plano... sempre renegando... sempre esperando... sempre aguardando...

E não entendem o porquê de eu tão facilmente “explodir” ultimamente.

Mais uma semana de sacrifícios parece estar começando... Mais uma vez os meus planos serão renegados ao segundo pelotão de prioridades... Mais uma discussão passou... Mais outras virão... Não sei até quando suportarei... Confesso!

Tudo o que quero é estar com ela... com a filha dela... e de três, sermos, finalmente, um... Mas pra isso é preciso o maldito dinheiro... esse verdadeiro mal maior do mundo que ninguém faz prece contra... ao contrário, enchem igrejas, templos e terreiros a fim de conseguirem fórmulas milagrosas de maior e melhor acesso ao verdadeiro demônio.

Penso sinceramente em largar tudo... desistir... correr... fugir pra ela, com cara, coragem, documentos e roupa do corpo... mas o mundo é cruel...

Que futuro daríamos a pequena, à nossa pequena? Penso nela mais que tudo. Sinto-me como se fosse o pai, sem ser... sem ao menos ainda ter-lhe tocado a face e dado um beijo de boa noite em sua testa... e eu, ateu, sei que estamos, eu, ela e a mãe, de alguma forma ligados... não encontrei explicações racionais para a quantidade de coincidências e pensamentos gêmeos... Somos três partes de uma mesma alma que luta com tudo contra todos para, novamente, e de uma vez por todas, ser novamente uma, feliz e realizada.

Dói-me constatar nossa distância. Dói-me saber que a amo tanto e tão verdadeiramente sem poder estar ao seu lado, sem poder ajudá-la em toda e qualquer eventual atribulação. Mas ser ateu talvez tenha um sentido...

Já testei de muitas crenças e verdades... católica, evangélica, espírita, wicca... fiz breves estudos sobre o islamismo, sobre mórmons... candomblé... nenhuma das ditas verdades me despertou a fé... E por isso, pensava eu até então, é que me tornei ateu... ledo engano!

Hoje sei que o ateísmo me faz reservar toda a fé que gastaria em verdades duvidosas, na única, maior, resplandecente e, perdoe-me a redundância, verdadeira verdade: O MEU AMOR POR ELA, O SEU AMOR POR MIM, E O FATO DE QUE TODOS OS OBSTÁCULOS QUE NOS FAZEM HOJE SOFRER SERÃO APENAS LEMBRANÇAS QUE FARÃO FORTALECIDOS O NOSSO AMOR.

Fantasioso demais, aparentemente. Mas o que é o Amor verdadeiro hoje, em meio a nosso mundo triste, cinza e amargurado, que não uma fantasia, uma lenda, uma história de contos de fada?

Que eu seja seu Rei, ela minha Rainha, com nossa pequena princesa, felizes para sempre!

E assim será!

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

#715

Vai-se em vento e rodas
a turva vida que passa sem eu notar.
Eu sou a antítese de meus pensamentos alegres
e quando impregnado de um bom humor latente
não passo de uma marionete do falso lado da vida,
as dores não me deixam sentir,
e é tanta saudade.

Bate lá do sul do fim dos tempos
essa brisa morna que anuncia o enfim,
o ocaso inebriante,
que faz de versos meras vômitos,
regurgitações de partes da entranha apodrecida,
a morte já tão anunciada
em suas faces previamente conhecidas,
e eu as conheço todas.

Foram em sonhos que elas se mostraram,
dez noites seguidas,
dez mortes,
des maneiras de partir.
Por isso finjo-me poeta
e sigo versos a repetir,
por isso meus versos sempre tristes,
pois enquanto poeta em sonhos,
em sonho algum morri.

07 de julho de 2008

#714

Quero um cigarro,
um único e burro cilindro de morte
que me traga a paz perdida.

Preciso me contaminar,
encher-me os pulmões de câncer
desafiar a morte, deusa de tudo.

Uma dose de adrenalina,
em um cigarro que me faça voltar a pensar,
meus pés já não podem caminhar a sós.

Quero um cigarro forte
que faça sentir a morte
que me faça perder a sorte,
eu preciso morrer.

Morrer mais rápido,
pois não tenho pressa,
deixar a vida esvaecer,
minha pele esmorecer,
meu peito parar de bater.

E o ar, ah o ar,
como o quero repleto de fumaça cinza,
de fuligens mil
de toque anil,
e sabor de fel.

Quero um cigarro,
o último talvez.

03 de julho de 2008

#713

Olho-me no espelho com vergonha.
No que me tornei?
Meus olhos ardem ao constatar o inconstatável.
Eu não sou mais eu.

Deixei-me perdido em alguma esquina,
algum abraço de fim de noite,
um beijo culpa da embriaguez,
sexo sem amor na cama que nunca deitei.

Onde estou, não sei.

Meus olhos não mais me reconhecem
e assim, quase sem querer,
vejo-me translúcido
nos olhos negros da imagem refletida no espelho.

Eu sei que no fundo sou eu,
no fundo.

03 de julho de 2008

#712

Não mais agito,
a festa acabou,
nenhum amigo,
nada restou.

O tempo passou como sempre passa o tempo,
efêmero, fugaz, sem razão.
Passou para a margem de lá
do rio que nunca cheguei a atravessar,
atravessou a nado o tempo,
levando minha vida nas costas.

Eu fiquei aqui, observando o que nunca enxerguei,
eu não sei onde estou.

Uma sonolência torpe faz-me relembrar o passado,
e sou aquilo que sempre fui, eu não mudo.
Passa um dia, um mês, alguns anos,
eu não passo.
Permaneço inerte na minha lisergia,
sem ultrapassar os limites estabelecidos.

Nunca estabeleci limites
e assim fui de lá pra cá
daqui pra lá,
sem me mover,
corri dentro de mim
como correm os pensamentos que fogem.

Sou todos sendo eu mesmo,
uma multidão,
um ataque suicida
em noite de festa
o aniversário de morte
a razão distorcida
a embriaguez eventual
e são tantos eventos que nem sei.

Não mais agito,
a festa acabou,
nenhum amigo,
nada restou.

E continuo como sempre fui,
um mesmo tantos eus
que sozinho senta-se a olhar o nada.

03 de julho de 2008

#711

A felicidade é uma ilusão barata
guardada no fundo de uma flor de ópio,
escondida pra depois terceira dose de whisky,
que se encontra em qualquer selo
de lisergia sinestésica.

A felicidade é uma ilusão barata
cuja manutenção custa muito ao corpo,
a alma não a sente,
almas não são felizes.

Nossas almas são eternas prisioneiras
de um mundo de toques e tato
ela odeia o mundo, quer ser sozinha
não suporta qualquer contato.

A felicidade é uma ilusão barata
um entorpecente qualquer
que busca iludir a matéria,
a alma reclama liberdade.

A felicidade é uma ilusão barata,
e o abuso leva à overdose
a superdose de sorrisos
e corações em disparadas
a adrenalina a correr o corpo
a parada,
o tudo em pouco tempo
e em pouco tempo o nada.

A felicidade é uma ilusão barata,
a morte a felicidade sem fim.

E como quero uma overdose de uma felicidade qualquer.

03 de julho de 2008

#710

Sinto-me ridiculamente velho.
Minhas mãos já não movimentam-se com a mesma intensidade,
meus olhos cansados doem a cada brusco movimento,
minha cabeça dói,
minhas costas doem.

Minha respiração ofegante
entrega-me totalmente dependente.

Não mais respiro pelos meus próprios pulmões,
não mais caminhos pelas próprias pernas,
não mais vislumbro o mundo com os antigos olhos,
não mais vivo pela minha vida.

Estou velho.

E por sentir-me ridiculamente velho,
e por falha a memória,
é que preciso de ti aqui pertinho, a todo instante,
para não me deixar esquecer.

Pois em teus olhos vejo o mundo,
caminho meus passos em teu rumo,
em teus pulmões o meu respirar,
e tua a minha toda vida de amor.

Sentir-me velho é apenas uma desculpa.

02 de julho de 2008

#709

Submerso em minhas próprias sensações sem sentido,
eu brinco de pular corda com minhas linhas tortas
de onde saem versos sem direção, sem nenhum rumo,
eu nunca me aprumo, perco o sentido, perco a razão.

Perdi minhas idéias e deixei-as penduradas no varal de casa,
mas minha casa não tem varais,
e são todas invenções sem nexo
as frases impensadas que faço em minha cabeça nas nuvens.

Como eu queria estar nas nuvens,
e então, talvez, seria mais eu.

Mas que sentido existe em versos desconexos,
quando o que se quer realmente
é só buscar o ser real.

E ele nem sequer existe.

30 de junho de 2008

#708

Acordei há pouco de meus devaneios noturnos
e minhas sensações abstratas
viram versos sem cor,
na mesma velha máquina
que hoje trago nova debaixo do braço.

Meus sonhos já não são tão suaves e serenos como os de outrora,
lembram-me sim meus piores medos,
minhas angústias passadas
cada vez mais próximas,
materializando-se
como o fantasma de meu passado
que me assombra a cada novo amanhecer.

Já não posso transcrever meus sentimentos
com a mesma sensibilidade e tato de antes,
faltam-me as palavras para esta nova fase,
eu que nunca chorei, hoje choro sem razão
e busco uma razão para não mais chorar.

Não leio versos de outros imortais,
estão todos mortos
e suas vozes contaminam meus pensamentos
deixando-os com o cheiro do lírio morto
que deixei sem água no túmulo de outro amigo.

Não consigo fazer de meus sentimentos
versos alegres para a posteridade,
a posteridade é longa demais
e eu já não tenho folêgo.

Não consigo mais ser poeta
e mesmo assim
tenho em mim todos os versos que ainda não escrevi.

29 de junho de 2008

#707

Onde estarão agora
aquelas todas esperanças
que depositei no meu passado?
Onde estarão agora
aqueles todos amigos
que pretensamente fiz?
Para onde foram todos os presentes
as mensagens de um futuro bom,
o meu próprio futuro?
Onde estarão agora os meus sonhos,
que correram livres pelo jardim
e hoje já não têm o seu lugar?
Onde estarão as melodias serenas
que cantávamos todos
em volta da fogueira?
Onde estará tudo aquilo que sonhávamos ser?
Onde estaremos?

29 de junho de 2008

#706

É sempre assim...
De repente, o sorriso fácil,
as palavras alegres,
proferidas de maneira descontraída,
os brindes e mais brindes,
os abraços, as idas e vindas,
a multidão, o barulho,
gente aqui e ali,
pessoas lá e cá,
a companhia que nunca falta,
amigos, colegas, conhecidos,
todos ao meu redor,
fala-se com todos,
toca-se a todos,
tudo é festa,
alegria sem par,
mas sempre acaba.

É sempre assim,
as festas se multiplicam,
os amigos se multiplicam,
os sorrisos parecem reais,
tudo parece um sonho,
mas sempre se acorda,
e o sonho se vai.

É sempre assim,
acordo de meu sonho sozinho em minha cama,
ninguém pela casa,
o silência nos alto falantes
gritando em bom som
as dores de minha solidão.

É sempre assim,
eu sozinho, no fim.

29 de junho de 2008

#705

E por que ainda insisto nas mesmas repetidas fórmulas?
Uma mesma sensação ignóbil
esconde-se por trás de todo ato impensado
que meus versos me fazem refletir,
e foi tudo um erro,
tudo uma abstração assentimental
que me fez recuar alguns passos,
sabendo-me incapaz de prosseguir.

Eu não tenho rumo.
Insisto nas mesmas velhas fórmulas
pois não possuo fórmulas outras
que me façam mudar o caminho.
Eu sou um só e só,
sem ninguém que me possa acudir,
sem ninguém que me possa abraçar,
eu sequer sei quem sou,
e sigo assim.

Daqui minha vida parte para algo desconhecido,
e tudo para mim é desconhecido, posto não ter mapas,
não ter chaves, nem mesmo álbum de fotos,
eu não tenho sequer lembranças.

Sou o amorfismo irreal
a correr como sangue real
azul pelas mesmas veias que me fizeram nascer,
desperdiço minhas forças em atos sem função alguma,
vou e volto sem saber porquê,
eu nunca sei o porquê de nada.

Minhas costas doem,
meus olhos doem,
meu coração já não bate com o mesmo ímpeto,
eu apenas tenho meus dedos
a movimentar teclas ao acaso
no teclado burro de meu novo cerébro eletrônico,
e tudo que sou eu nunca fui.

Minha vida é um rastro escuro de graxa,
uma sujeira qualquer no livro da Terra,
que esqueceram de limpar, um borrão que não apagaram.

Eu não tenho para onde ir.
Não tenho para onde fugir.
Só me resta então seguir.

29 de junho de 2008

#704

Caminhei em passos sempre
Largos, buscando sem cessar
A felicidade que sabia existir.
Rastejei em caminhos de lama,
Inventei rimas sem drama,
Sofri, chorei, passei,
Segui sem rumo por dias,
Andei, andei, andei.

Passei por mãos e corações sem rumo,
Abraços frios que não me davam o prumo,
Sentimentalisto anacrônico
Queixas que deixei no passado.
Um anjo então, desses que não se sabe como,
Alcançou-me a mão, quando perdido estava,
Levando-me ao paraíso de seu sorriso,
Olhos de conforto sem par,
Toda felicidade escondida,
Tudo neste teu sorriso, teu lindo rosto,
O anjo meu, que hoje és.

29 de junho de 2008

#703

Eu não consigo recordar
do tempo de outrora que já não volta.
Minha memória está fraca,
caduca a mente que antes astuta,
hoje nada mais do que já fui.
Resta-me apenas um traço fraco
da personalidade toda que passou
e que me fez tão presente,
tão marcante em todas as rodas vivas,
rodas mortas, rodas sujas
e todas as outras rodas,
eu era sempre o centro das atenções.

Hoje nem sei mais atenção,
vivo largado aos cantos,
jogado às traças de meu próprio esquecimento,
uma toda ignorância, fruto de tudo o que fiz,
não reconheci nada, ninguém, sempre fui eu,
e hoje sou somente eu,
como nunca deixei de ser.

Mas o eu de hoje parece-me triste,
não tem o mesmo sorriso estampado no rosto,
não mais os desejos de prosseguir,
nenhum plano futuro sequer,
o eu de hoje busca não mais ser,
a morte que lhe traga o alívio,
a redenção dos que não mais querem viver.

Hoje, depois de tanto desmerecer atenções,
de tanto não valorizar as companhias,
mesmo que falsas, que ao meu lado sempre estavam,
hoje não mais sei atenção,
e é tudo o que eu queria,
ao menos um pouco.

29 de junho de 2008

#702

Caem em gotas frias
do cimo de minhas angústias sem sentido
as mesmas falsas lágrimas agudas
que um dia derramei em versos mudos.

Nada mais parece ter razão de ser
e mesmo esse bar, esse whisky amargo,
essa solidão tão presente
parece-me ser roteiro de um drama barato qualquer,
um total desentendimento entre razão e emoção.

Nada mais faz sentido,
e ainda que eu force meus olhos
o horizonte mostra-se disforme
e fora de foco.
Não enxergo futuro algum.

Sou apenas um poeta solitário
a dormir em seu quarto escuro
onde musas fazem enfeite
nos porta-retratos e posteres na parede,
e não passa de ilusão
todo minha nula companhia.

Sou apenas um poeta solitário,
que chora gotas frias
de uma falsa tristeza que emociona.

Sou apenas solitário.

29 de junho de 2008

#701

Já não posso mais olhar para os jardins da juventude,
minha vida, há muito lá já não está,
meus lamentos silenciosos fazem eco,
minha dor, a mesma velha dor de outrora,
meu mesmo sentimentalismo anacrônico
e toda aquela reunião sem graça de pessoas a meu redor.

Sinto que algo me faz falta,
falta alguém que aqui não está,
falta-me o abraço quente, o beijo,
as palavras de esperança,
doces lampejos de um coração solitário,
simples desejos de um poeta só.

Minhas mãos calejadas sentem o peso da vida,
as costas já não mais suportam carregar os anos que passam,
meus sonhos... para onde foram meus sonhos?

Procuro-os na estante e não os encontro.
No velho baú de desesperanças
apenas velhas ilusões e nada mais.
Onde estão meus sonhos?

Vasculho o guarda-roupas,
nos bolsos de minhas velhas calças,
nas caixas de quinquilharias sem importância,
mas que não me permito descartá-las,
em meio a meus cds.
Perdi meus sonhos.

Perdi meus sonhos para a realidade crua,
dura realidade que me faz ser tão mais real
quanto o sangue e o suor que me escorrem e correm,
nas veias, rosto, corpo todo
de minha alma já sofrida.

Perdi meus sonhos pelas calçadas quentes,
espalhados no asfalto flamejantes,
nas ruas de meus caminhos desconhecidos,
em cada beco que não entrei,
em cada rosto que não conheci,
em todo verso que escrevi.

E tudo o que desejo agora
é ser triste sem que queiram interferir,
sem que me queiram tratar,
eu não estou doente,
apenas triste, nada mais,
deixem-me aqui, sendo eu,
um triste poeta,
triste rapaz,
em paz.

28 de junho de 2008

#700

Vejo-me ao longe,
ainda na tenra idade
olhando o mar vasto,
sentado sobre a rocha desnuda,
buscando pontos distantes
no olhar distraído
que longe se vai,
sem que se note.

Navios e barcos,
pescadores errantes,
peixes pequenos,
peixes grandes,
sereias, golfinhos,
minha alma,
um desfile radioso
de sensações abstratas
e minha mente à deriva,
sem saber como chegar.

Provei do mar
a brisa salgada que ele traz
e meus olhos fizeram-se mar
a gotejar serenos
as lágrimas, água do mundo azul,
que em meu olhar fez-se alojar.

Ali sozinho,
sentado sobre a rocha desnuda,
no auge de meus quatorze anos,
percebi na brisa que soprava de além-mar
a solidão minha companheira,
vi meu destino, viver sozinho,
sofrer por amar.

E desde então sigo meu caminho só.

25 de junho de 2008

#699

Morrem em mim a cada novo amanhecer
tantos outros eus
quantos foram os que estiveram comigo
na noite que antes passou.

Sufocaram-se no pequeno ambiente sem ar
que é minha mente vazia
repleta de uma toda sensação sem graça,
atolada de pensamentos movediços
que matam aos poucos
tanto mais ativos são meus eus.

Morrem em mim a cada novo amanhecer
os planos todos que não pude realizar,
os sonhos todos que me fizeram despertar,
os antigos amigos,
os que ainda nem são,
aqueles que nunca serão,
um todo que me faria outro
e que outro sou na ausência de um todo.

Morrem em mim a cada novo amanhecer
os demônios tolos que me inspiram a madrugada
e que não me deixam adormecer.

Morrem todos em mim a cada nova manhã
e morro com eles,
no eterno amanhecer rumo ao fim.

E no fim não haverá amanhecer algum.

25 de junho de 2008

#698

Que tolo sou eu,
ainda crente no amor.

Vivo de plantar ilusões
no jardim seco de minhas alegrias mortas,
a terra infértil chora o castigo,
a enxada parece compreender a dor alheia,
e faz-se quebrada por sobre os galhos no chão.

Que tolo sou eu,
ainda crente no amor.

O tempo passou e hoje não mais,
só prazer barato,
carne e tato,
a dor do desejo sem par,
o carinho burro perdido no bar,
a mancha de sangue ignorada no lençol,
a falsa alegria a sorrir ao novo sol.
E não há sol de onde vejo,
as flores jazem amareladas.

Que tolo sou eu,
ainda crente no amor.

Eu o profeta carente,
o ateu espiritualista
a evocar o grande sentimento,
o grande tolo que ainda crê.

Que tolo sou eu,
e serei,
pois se não no amor,
no que acreditarei?

Deuses estão longe demais de mim...

24 de junho de 2008

#697

Queima lento na escrivaninha de minha vida
o doce incenso das paixões,
exalando seu perfume de saudades,
misturado ao desejo presente no ar,
a vontade de ter você aqui.

Fecho meus olhos tristes
e vislumbro de peito dorido
o teu sorriso, encanto de meus dias,
inspiração de noites solitárias,
felicidade instântanea de meu despertar,
ausência que me faz morrer tanto mais
quanto menos deveria,
o tempo não passa.

As noites arrastam-se
e sou o ínsone a vagar pelos corredores
a bater com os pés nos móveis,
a procurar o abraço que não está,
buscar o abismo,
de onde eu posse me atirar,
partir, esquecer, apagar.

E nem mesmo o conhaque de outroa,
hoje chá meu companheiro,
o meloso companheiro antigo
faz-me pensar em suicídio,
em morte instântanea fim de tudo,
puta tolice.

O incenso já quase a a apagar,
faz-me refletir sobre a vida,
faz-me pensar sobre mim.
E sou, de repente, aquele incenso,
já prestes a se fazer em cinzas,
como eu, próximo ao fim.

24 de junho de 2008

#696

A felicidade parece estar presente de onde me sento
a vislumbrar o horizonte sem par,
faz-me rimas sem versos,
amores crus,
mal temperados
e de uma distância quase muda,
que é a vontade de ter
e só vontade.

Ela está sempre ali,
sentada em sua cadeira de balanço,
medindo com cuidado maternal
cada movimento meu
que os faço em desmedida forma
e sem jeito.

Balança-se com o barulho do vento,
interrompendo pensamentos serenos
que logo se tornam sorrisos nulos
de maligna alegria e bem estar.

Ela sorri de minha solidão,
fazendo disso a sua razão de estar.

Não se manifesta quando caio a seu lado,
nem mesmo estende a mão para me levantar,
afasta-se e sorri monalisamente,
querendo, de alguma forma, esconder a satisfação flagrante.

A felicidade está sempre a meu lado,
vislumbrando comigo o futuro feliz no horizonte,
sempre distante
e tão mais longe quanto suas mãos da minha,
eu a vejo,
mas não a consigo alcançar.

23 de junho de 2008

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Estamos de férias

Em razão da atual atribulação temporal a que venho experimentando, achei por bem tirar umas férias do meu eu blogueiro. Sendo assim, por período indeterminado, não haverão novos posts.

Volto assim que der!

Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

#695

Eu quero a vida com um vento mudo
que bate lá dos confins do mundo
carregando consigo toda folha órfã,
toda gota sem força, da chuva que não irá cair,
quero a liberdade dos amigos a meu redor,
a felicidade do correr sem fim,
parar quando assim quiser,
quando não, prosseguir,
continuar, seguir.

Busco em minhas memórias torpes
uma qualquer sensação vazia
uma desesperança qualquer que me faça parar,
uma tristeza tola que me faça chorar,
e encontro todas.

Choro então a versátil sensação do saber
que triste sou sem razão alguma para lágrimas,
sem motivação que faça saliente
essa vontade vil do isolamento senil.

E quanto mais eu busco a felicidade
é no vazio solitário de meus versos
que encontro o conforto de um lar.
Sou e serei sempre triste,
isso eu não vou mudar.

23 de junho de 2008

#694

E o que são agora meus sonhos,
se não inscrições antigas
em páginas amareladas
de um livro que nunca li?

O tempo passou estanque,
como se não quisesse rodar.
A vida estática fez-se nula,
com suas mesmas malas brancas
que correm aeroportos sem destino.

Penso o mundo como o mundo me vê,
e sou a antítese de um sonho bom,
o concretismo abstrato de minhas formas murchas,
eu nem sei quem sou.

Sentado em minha mesa morta,
vejo o mundo pela janela eletrônica
que de cores reconhece mil,
e eu sei no máximo uma meia dúzia.

Meus olhos estrábicos enxergam com dificuldade
o horizonte sêco que se mostra distante,
e tão mais quanto mais longe ficam meus óculos,
eu não consigo enxergar.

Sons e tantas melodias outras
fazem-me pensar no que passou,
no que ainda está por vir,
mas eu nem sei distinguir passado e presente,
vivo no futuro de uma utopia burra
que sei não fazer sentido.

Escrevo versos tortos
como quem quer consertar a própria vida.

Mas que vida temos aqui?

17 de junho de 2008

#693

E, de repente, faz-se trevas
do que outrora era amor e paixão
e claridade quase a cegar.

A escuridão febril,
o calor avesso, o frio,
a pele eriçada, o arrepio,
a lágrima a correr congelante
pelo rosto estático em dor.

O piscar de olhos torna-se mero enfeite,
breu absoluto em estado de letargia nevrálgica,
a dor e o absurdo,
tudo mudo.

Cores desbotadas não notadas,
acordes fúnebres
a embalarem o sono último de nossas vidas.
Agendas de compromissos esquecidas,
afeto pela metade,
viagem que hoje planos, e só,
assim, sem mais,
sem rimas,
a escuridão de olhos abertos...
para sempre.

17 de junho de 2008

#692

O cheiro do sangue fresco
a correr lento
pelo corte recém aberto
desperta-me os sentidos todos,
faz-me abrir os olhos
de pupilas dilatadas,
afinar os ouvidos
que ouvem as gotas distantes
pingando sobre o chão frio,
a boca enche-se de água,
e disparo
seguindo o rastro de sede,
do desejo,
que farejo cada vez mais próximo.

Preciso beber,
saciar a sede,
alimentar a fome,
entorpecer-me a ansiedade,
em goles sedentos de sangue
sangue que bebo em balde.

16 de junho de 2008

#691

Não,
os passos hoje me conduzem
a um caminho que é o oposto
a que outrora andei contrário,
leva-me para lá
que cheguei cá
e parti.

Talvez a mesma dúvida,
a cruel indagação do ser,
que não se conhece estar
nem onde, que lugar.

Vou-me para caminhos outros
que a volta se faz impossível.

E espero não saber voltar.

Para onde vamos?

16 de junho de 2008

#690

Hoje meu dia amanheceu cheirando a sangue
e fui despertado pela melodia fúnebre
que ressoava muda pelos corredores frios
de minha casa cada vez mais vazia.

Os espectros de tantos outros
agora pairavam sobre o assoalho gasto,
já marcado pelo rastejar de correntes.

Meu ânimo matinal foi assassinado
tão logo tentava se manifestar,
eles são rápidos e não têm compaixão.

Permaneci deitado a contar os passos nulos
e voltei a cochilar preguiçoso
sobre a manta da morte
que descansava soberba
em minha cama embebida em sangue.

E eu nem sei de onde tiraram tanto sangue,
tanta vida minha a correr
e pintar de vermelho meu alvo lençol.

16 de junho de 2008

#689

Fechem a porta e as janelas!
Por favor, tranquem-me em minh'alma.
Quero agora viajar estático,
sumir sem dar um passo à frente,
seguir sem titubear
pelos caminhos confusos
que guardo na mente cansada.

Carrego comigo a chave mestra,
a senha lisérgica para todo portal seguro,
vou sozinho e muito bem acompanhado,
sigo com meus demônios
que são meus guias,
neste tour por sua moradas hipnóticas.

Por favor, esqueçam-se de mim,
deixem-me só.
Hoje quero viajar sozinho
vou pra onde ninguém vai,
vou sem nada
e nada mais.

15 de junho de 2008

#688

São milhares os passos,
os drinks servidos,
os pedidos e os garçons,
djs, músicas e batimentos,
batidas por segundo,
risos soltos, abraços,
olhares a cruzarem-se alegres,
o encontro inesperado,
mais uma dose,
reuniões celebrando a felicidade,
ruas lotadas,
bares,
boates,
chácaras,
o céu,
a lua,
estrelas,
tanta vida e tanta alegria,
tanto por comemorar,
tanto pra sorrir,
e tudo lá fora,
distante de mim.

Em meu quarto escuro
somo eu, a solidão,
e um som mudo ao fundo
que é o silêncio de uma lágrima a tocar o chão.

15 de junho de 2008

#687

E não pude das flores do meu jardim
retirar o perfume raro
a doce essência que lembra amor
o suave sentido de seu odor,
elas estavam mortas!

Morreram quando tu partiste
partindo assim meu jovem moço coração
que de dor envelherceu e vive senil,
banhado em sangue e dor, paixão.

As flores do meu jardim todas arranquei
que do meu peito amor tirei
e vivo hoje então feliz
que vivo sem a sorrir
sem ninguém amar
sem ninguém lembrar
sem ninguém querer
vivo assim sozinho
vivo por viver.

Hoje meu jardim é de plástico.

13 de junho de 2008

#686

Da moldura de mármore
que repousa incólume
sobre a escrivaninha muda
onde agora encosto a cabeça
viajando no teu retrato,
surgem todos os desjos meus.

É o teu corpo semi-desnudo,
sem violentar meu pudor,
a fagulha que cai
sobre o graveto seco e duro
que faz-se chama, labareda,
fogo alto, fogueira,
um incêndio que me toma por dentro
e faz de mim uma floresta a queimar.

Teu retrato a encarar-me sensual,
toda a lembrança de sonhos,
toda a vontade contida e contada
atos nulos, que se fazem desejos,
que o tempo e a distância tornam paixão,
a queimar fogo alto o coração,
derramando da panela o leite, puro tesão.

13 de junho de 2008

#685

Eu não consigo encontrar a felicidade,
ando longos quilometros
com os pés descalços
sobre o asfalto quente
sob o sol fervente
que me anula os pensamentos
e não consigo encontrar.

Disseram-me, certa vez,
que a felicidade se esconde
pouco além da linha do horizonte,
mas o horizonte sempre se afasta
a cada passo meu,
a cada desejo.

A desesperança dos desavisados me anuvia a alma incólume,
e passo inerte pelas cordas do tempo
que atravessam meu corpo sem que eu sinta.

Meu caminho a cada passo se torna infinito,
e em busca dessa infinitude sigo eu,
perseguindo paciente
o horizonte que me foge.

Eu não consigo encostar na felicidade
e toda a alegria são teus olhos tristes
que me fitam do lado de lá
o lado tão longe de mim, onde estás,
e onde a felicidade existe.

13 de junho de 2008

#684

O sono me chega sempre tardio
assim no meio da tarde
quando ainda radiante
o sol do meio dia
que há pouco passou.

Vem avassalador
com seus bocejos-granadas
metralhando piscadas mais longas
e uma lisergia mórbida
quase um coma.

O sono me chega sempre tardio
mas furioso e apressado
sempre desavisado
na tarde que me enche, cansado,
momento sempre errado.

E à noite ele some entre as cortinas
e viro acordado
outras outras mais em claro
tantas horas na matina.

13 de junho de 2008

#683

É um todo sem limites
essa mesma toda dor e sofrimento,
o pranto que não cessa,
a solidão contumaz
que nos afoga
e não cansa.

Meus olhos sim se cansam
e já não suportam chorar
o mesmo lamento que corre frio
por meu rosto já exausto
e quase sempre apático,
abatido pelo nada e tanto,
toda distância,
tantos passos,
tantos carros
e nada,
e tudo,
ao mesmo tempo.

A solidão bateu em minha porta
e eu, tolo que sou abri,
deixando que ela fosse ficando,
até que me acostumei.

Hoje somos eu,
a solidão
e só,
só saudades,
eu só.

12 de junho de 2008

#682

Eu abano minha mão vazia,
no ritmo do vento,
que me toca os cabelos mal cortados
que mão alguma afaga
há tanto tempo,
esperando que alguém me responda,
mas ninguém me responde.

Minha mão permanece no ar,
como a folha solitária
que viaja sem rumo
carregada pelo acaso,
eu sou o acaso,
o ocaso
o caos.

Abano minha mão vazia
como quem procura a metade perdida,
e percebo-me então inteiro
que sou eu sozinho sem metade
pois inteiras são as dores da vida,
que não divido com ninguém,
com ninguém.

Minhas dores são só minhas
e todas só.

12 de junho de 2008

#681

Ouço ao longe
o ressoar quase mudo
dos morcegos negros
esvoaçando pelas campinas escuras
em busca do alimento noturno.

Grilos e sapos gritam o desespero da noite,
corujas murmuram insólitas nas árvores,
enquanto queima a madeira em fogo
iluminando os arredores de minha consciência já em sono.

Pássaros assobiam o seu cantar longínquo,
sussurrando segredos com o vento.

Eis a noite fria
que se descortina enquanto meus olhos pesados
adormecem entorpecidos pelo seu som inebriante.

E sou de repente um corpo
misturado a tantos outros espíritos
que me confundem com a natureza nua.

06 de junho de 2008

Terça-feira, 7 de Abril de 2009

#680

Cambaleante
chego a exorcizar os olhos faiscantes de teu rosto,
imagem perfeita gravada em minha mente ignóbil.

Vem me fazer sorrir o riso mudo
que guardo há tanto em minha caixa de pandora,
cofre de minhas alegrias invertidas,
todas vestidas de negritude pálida,
no aconchego desgastante de meus ossos roídos.

Caminho a estrada toda
e meus pés parecem não querer parar,
mas minh'alma dói demais,
e não consigo prosseguir.

Sento-me, absorto com a imagem frívola
de uma borboleta agonizante
a balançar sereno
as asas que o vento leva.

A beleza perde o culto
quando esgarça-se a linha tênue da sobrevida.
Somos todos culpados
e seguimos inocência vil,
pelas auto-estradas assassinas
de nosso caminho torpe.

Meu café já não basta,
quero o malte envelhecido em tonel de carvalho morto,
o líquido sangue acobreado
que me mata a sede da embriaguez desejada,
e talvez uma gota de meu colírio lisérgico,
que me abre os olhos para experiências nunca vividas,
e eu não sei viver.

Sigo sem rumo,
a procurar pedras
onde meus pés possa pisar,
é necessária a dor,
é necessária a dor,
só o amor é vital,
só o amor.

06 de junho de 2008

#679

Meus olhos, por um momento fechados,
fazem-me viajar numa imaginação alucinativa,
um coma induzido por estradas transversais,
caminhos nunca dantes vistos,
que seguem logo a frente para lugar algum.

Penso ao despertar, a reflexão mais clara,
preciso fugir de tudo,
ficar longe de tudo,
um eremita em busca de si,
um monge em busca de deus,
mais um humano em busca do nada.

E ao repousar meus olhos
no horizonte que se destaca à minha frente,
adormecerei sem ter sentido disso,
para viajar ao nulo
de onde não mais voltarei.

04 de junho de 2008

#678

É no silêncio do meu quarto escuro,
onde as frestas iluminadas de uma amarelo torpe
esgueiram-se sóbrias na fútil tentativa
de adentrar ao recinto em trevas,
que ouço as vozes que nunca deveria ouvir.

Falam-me de outros mundos
e de outros seres isolados
que permanecem inertes
na escuridão embriagante de paredes cercadas
tendo a noite eterna lá fora,
sem Lua,
sem nada aqui dentro.

São vozes encarceradas em uma caixa oval,
repleta de uma massa cinzenta multicolor,
pseudopensante massa cinzenta,
que me revela fatos inúteis
enrolados em papel de pão,
onde fazem o jornal das seis.

Querem falar de outras coisas mais,
no entanto, não sabem elas
donos de suas vozes ecoadas,
que sou eu o dono de toda voz
e todos eles um só
em mim.

04 de junho de 2008

#677

Regurgitarei imperioso
as palavras cultas
que em minha boca fazem-se palavrões de despautério chulo,
a angústia finita de um universo paralelo
que não posso tocar.

Corre nas arestas do tempo nublado
que forma-se em nuvens de indecisão
sobre minha mente enegrecida,
minha alma quase partida,
essas todas dúvidas de que tanto falam,
e eu nem sei dar por elas.

Meus olhos pesados parecem embalar senis
a vontade maldita que descansa serena
entre meus pensamentos mais reconditos.

Eu preciso alcançar aquela taça de luz,
minha consciência quer aos poucos voltar
e eu não posso deixá-la respirar.

Sorvo com pressa engasgadora
toda a sorte de álcoois e tantos mais entorpecentes,
mastigo os alucinógenos em plantas duras,
engulo a seco o ar poluido do carro que não anda.

É preciso morrer em marcha ré,
voltar.

E enquanto regurgito estas palavras sem nexo,
vislumbo no quarto ao lado, o anexo,
a verdade nula de minhas tantas idiotices.

Eu definitivamente não sei para onde vou.

04 de junho de 2008

#676

Aquela paz,
que outrora estivera aqui,
pairando por sobre nossas cabeças leves,
que flutuavam serenas nas nuvens de nossa inocência,
aquela velha paz
hoje não mais a sei.

Estou em meio a um tornado,
um ciclone extra-tropical,
atípico à toda forma de tranquilidade pacífica,
que vem sem bater na porta,
abre-a e leva tudo pelo caminho,
pára em frente à minha cama
onde deitado sinto a inércia a percorrer meu corpo,
e encara-me como que querendo perguntar.

Mas ela não sabe o que perguntar.

Fita-me impávida,
na esquálida figura de ossos
que grita a amargura insana
de fatos passados que nunca chegam.

Não consigo entender.

Levanto-me.

Os olhos me seguem curiosos.

Encaro-me cru no espelho de minha existência sôfrega,
e quando então o vapor barato do chuveiro desligado
finalmente dissipa-se,
vejo incólume,
a minha figura em ossos,
que me fita atrás de mim.

E eu não entendo quem sou eu.

04 de junho de 2008

#675

Tic.
Meu coração bate
acelarado coração
que pulsa acelerado
a inerte pulsação
de minha solução inerte.
Tac.

Tic.
O suor esfria
e corre o suor frio
com vento que corre
e diz-se nulo o vento
pois nulo é o ventre
de quem ventre não tem.
Tac.

Tic.
Idéias soltas
sem nexo
sem razão
o desespero
eu preciso
eu espero
achar a solução
qual é?
Tac.

O tempo é meu inimigo.
Tic-tac
tic-tac...

03 de junho de 2008

#674

O inferno se abate sobre mim,
e é como se eu já conhecesse esse agouro,
essa toda forma quase cômica
de sofreguidão abstrata
sem ter para onde fugir.

As moscas ali sentadas em fila,
todas negociando a correta ordem,
apenas aguardam que eu caia
para que possam pousar vis
em meu corpo cansado,
jogado ao solo infecundo.

Os abutres reclamam a preferência
e voam rasantes
o círculo mórbido
da vasta claridade solar.

O inferno abate-se sobre mim,
e me sinto como sempre
pois vivo somente assim.

Será o fim?

03 de junho de 2008

#673

Por que em mim?
Por que em mim toda angústia,
toda sorte de maledicências dirigidas,
toda parte espalhada em horizontes senis,
toda palavra não dita
e toda a dúvida?

Os sentidos faltam-me aos poucos
que da vida passei sem ver
os limites do abismo cresce
e faz-se tão mais real a cada passo.

Eu não posso voltar!

Seguir em frente sem motivo
sabendo certo o futuro perdido
eis que me encontro só
a um passo de nada mais.

E eu não posso voltar.

03 de junho de 2008

#672

Vai ao longe
com suas asas esticadas
secando ao sol do meio dia
que a noite se fará inteira
e tão mais clara
quanto a folha em branco
que deixei no chão.

Não enxerga,
nada ouve,
não respira o ar
que sufoca os dedos
embriagados de paixão febril,
nada sente.

Apenas viaja
na imensidão sem chão,
no céu sem nuvens
que troveja sonhos
e faz chover sensações ignóbeis.

Voa ao longe
e vai-se longe
sem limites
além da dor, do amor, do mar,
de toda a força de qualquer pulmão,
voa alto, voa livre,
minha imaginação.

29 de maio de 2008

#671

Do meu cigarro burro,
o enésimo que levo a boca
depois que parei de fumar,
trago toda a insolidez
de toda nudez cinza
talhada em troncos febris
de madeira morta,
como morta está
a infinitude obtusa de meus versos,
desvairio sagrado
em postas menores de paixão onírica.

E não passo de uma mais ébrio sem razão
afogado na angústia que é não ter o que esquecer.

E eu não te esqueço!

21 de maio de 2008

#670

E o que são meus versos
senão preces ao amor divino
e tão mais puro e altivo
que por ti sinto, anjo meu?

Meus passos me conduzem insólito
a um futuro sem par
que contigo quero viver,
sempre ao teu lado
e tudo.

Teus serão os versos meus,
os meus beijos,
meu sorriso, a reação da tua alegria,
teu prazer, minha recompensa lívida
no fim da noite ardente
na lua cheia de amor.

E eu, outrora metade infecunda,
a vagar sozinho pelo mundo vasto e vazio,
serei a completude em melodias e acordes,
a sinfonia ímpar da felicidade
em explosão de cores, alegria,
poesia.

28 de maio de 2008

#669

E quando estou sozinho,
mesmo que em meio a um estádio lotado,
sinto dó de meus olhos chorosos,
que escorrem a lágrima escondida
das saudades todas
que fazem-se correr em meu rosto.

Minhas alegrias parecem esvair-se
como a areia fina que seguro entre meus dedos.
Caem serenas e se perdem
dentre tantas outras perdidas
de minhas outras vidas
e tantas outras mais.

A praia faz-se cemitério
e a tristeza paira na maré seguinte
recolhendo os frutos não colhidos.

Cansei de pousar meus olhos no horizonte,
ele é sempre o mesmo.
Vez ou outra um barco se perde por lá,
vez ou outra um barco ressurge.

O horizonte é a morte e a vida,
que vem e que vai,
o deus estático
que faz dos movimentos calmos
todo o caos de outrora
e a paz que vem de encontro ao cais.

Preciso de suas mãos nas minhas
anunciando o caminho a seguir.
Preciso dos teus olhos nos meus,
fazendo-se farol a iluminar o mar de minha vida.
Preciso de você como um todo,
para completar a metade que me tornei
desde que te conheci
desde que te perdi
desde que te deixei aí.

E quando sozinho entre a multidão enlouquecida,
perco-me em pensamentos vazios
sempre levando-me a ti,
por mais distante que estejas.

27 de maio de 2008

#668

Meus olhos, que são?
Eternos radares ligados
na incessante busca
do teu perfume aceso
que ouço de longe
parecendo tão perto,
e ao mesmo tempo tão incerto
que toco tuas doces palavras de amor,
as mesmas que nunca dissera.

Sigo fingindo amor
que de amar serei amado
um dia,
talvez.

26 de maio de 2008

#667

Meu passo alcança de súbito
o horizonte futuro de minhas sensações
e piso a linha ofegante do ser-estar,
sem saber ao certo quem sou e onde estou.
Não entendo o passo maior,
vislumbro daqui o que passou
e no futuro volto a ser quem fui,
e já não sou o mesmo.

Não cresço!
Apenas amadureço a fruta enrolada em folha de jornal passado
e eu nunca li aquelas notícias.

Meu pensamento vem e vai
e cai pouco abaixo do limite.

Dói-me profundamente o pensar
pesa-me nas costas
e uma vez mais embriagado pelo som mudo da verdade nula,
caio na calçada, gueto de meu quarto escuro,
cama, eu, meu colchão,
o álcool, meu pensamento, paixão.

Mas durmo por sobre a cidade vazia,
solidão.

26 de maio de 2008

#666

Amor
que dos sonhos o mais perseguido,
o desejo mais procurado
nos sites de buscas espalhados no mundo.

Cartas, e-mails, recados,
relacionamentos em câmeras sem toques e frios,
apenas palavras ao vento,
pequenas palavras apenas,
um amor senil,
diálogo mudo de corações em dor.

Amor
que dos sonhos
a palavra chave que mais abre portas
e escancara esperanças em bits, bytes, megabytes.

Eu não busco o amor
procuro apenas meios de chegar até ele,
que mora longe,
mora longe,
mas a tenho perto
na tela de meu computador.

Encontrei meu amor flutuando em uma sala que nunca toquei.

26 de maio de 2008

Terça-feira, 3 de Março de 2009

#665

Quero-te pra mim,
como a um sonho realizado,
um amor febril sem fim.

Verbalizar teu corpo
como pequenos fragmentos
de uma ode ao amor,
que funde na carne
e confunde-se no espírito.

Beijar os lábios sequiosos de tua boca,
raiz de todo íntimo desejo.
Tatear cuidadoso o fino toque de tua pele macia,
como quem admira a seda recém saída do tear.

Deitar-te serena na cama de nossas vontades,
e matá-las todas, sem dó, sem piedade alguma,
apenas o suor de dois amantes impiedosos
e escorrer como o sangue do vencedor no campo de batalha.

Fazer versos dos teus gemidos,
poemas dos teus orgasmos.

Fazer dos teus olhos
o meu repouso feliz,
e sonhar sorrindo
deitado ao lado de teu corpo desnudo
onde escreverei minhas declarações mais sublimes de amor.

26 de maio de 2008

#664

A vida,
como um copo descartável,
enche-se água até a borda,
deixa-se transbordar,
até perder-lhe os sentidos mais íntimos,
e o Sol se encarrega do resto.

Seca,
como a terra em dia de estiagem,
e vai-se como um vapor barato,
sem noção de sentido,
sem caminho por seus rumos
assim como não quero
e não consigo evitar.

Meus olhos admiram insólitos
a nudez desigual dos seres pensantes.
Eles não sabem porquê nudez,
e insistem naturais,
como animais sem nexo,
cabeças que te levam, sexo,
amor sem saber amar.

A reticência torpe
que macula as mais doces intenções
e tudo é segunda vontade,
segundo plano,
a cada novo segundo.

Meus passos são mudos
e minhas palavras já não conseguem gritar teu nome,
tudo é dito com os olhos tristes
de alguém que espera
e espera,
sem cansar.

Um dia eu vou te alcançar.

26 de maio de 2008

#663

Quando olho para trás
noto com uma clareza torpe
as lembranças ignóbeis
pelas quais passei sem perceber.

Minhas mãos tateiam cegas
toda sorte de maledicências ditas
e tantas outras engolidas a seco,
queria ser livre
e poder me esquecer.

A felicidade passeia à margem de meus pensamentos
e não consigo dar por ela o valor merecido.

Minhas ações despencaram
e sou uma empresa falida
de palavras, puras falácias
que jogo ao vento
em busca de retorno.

Já não consigo entender meus próprios atos.

Penso o impensável
e me culpo à noite por toda besteira não proferida.
Meus lábios se esqueceram de dizer a verdade
e guardo-as em minhas sensações secretas,
meus sonhos noturnos que não me deixam dormir.

Às vezes eu acho que estou cansado demais para viver.
Outras vezes eu vivo sem sequer saber.

Falta-me um abraço,
eu sei que falta.

15 de maio de 2008

#662

É o teu sexo quente
envolvido em meu abraço
embrulhadoo em beijos lascivos
e toques safados
que quero jogado
em minha cama de desejos.

Teu corpo em atrito mudo
deslizando suado no meu
como peças perfeitamente projetadas,
o encaixe suave
o vai-e-vem macio
em velocidade crescente
de olhos a cruzar olhares
de mãos bobas a se cruzarem
de bocas sedentas a beijar e beijar.

O sorriso terno
embebido em libido carnal
o fechar os olhos e enxergar o infinito,
o gemido, o urro, o grito,
o gozo sem pudor
sem vontade de fim
amor de puro amar
meu corpo no teu
você em mim.

13 de maio de 2008

#661

Bate-me às vezes,
assim, sem nenhum compromisso,
uma súbita tristeza suprema,
um vazio tamanho
e eu nunca sei dizer de onde vem,
nunca sei-lhe dar explicação.

Talvez seja o medo de não saber ao certo quem sou,
a dúvida cruel de todo caminho que se inicia,
para onde vou?

Como se a vida, a felicidade ali do outro lado,
recolhesse sua mão,
só para não me alcançar,
vira-me as costas
e parte sem rumo,
deixando-me aflito e só.

A chuva começa a cair
e são lágrimas confusas
que molham o fraque branco
que visto no velório tardio de minha alegria.

E nem sei se vale a pena chorar.
Calço meus velhos sapatos brancos
e saio às ruas, solitário, vou passear.

Espero acordar numa cama qualquer,
e me esquecer de todos meus pecados.

06 de maio de 2008

#660

Meus passos rumam desarrumados,
cada qual buscando um caminho diferente,
sem saber qual caminho é o meu,
sem saber para onde ir.

A vida talvez fosse mais terna
não fossem as ausências
e essa dor latente
que me bate no peito.

Tudo me parece saudades daqui de onde estou.

Meus olhos vislumbram o horizonte senil,
quase como cabelos brancos
que caem de minha testa lisa,
o suor não os impede de cair.

Talvez sejam só lágrimas, e nenhum suor.

Por que tanta dor
se nem mesmo vencemos a distância?
Por que tanto amor
se tudo parece só solidão?

E o frio aperta ainda mais o peito.

As minhas velhas lembranças
são marcas passadas
de sorrisos a dois
que ficaram na memória.

E tu, amor meu que o tempo não faz passar,
tu toda lembrança,
tu todo sentimento,
tu toda saudade,
e essa vontade que me faz viver.

Um dia ainda seremos, eu e tu, nós.

03 de maio de 2008

#659

Amo
incondicionalmente
a cada ano que passa
a cada dia
a cada hora
a todo minuto
em qualquer momento
não importa onde estou
não importa onde estão os corpos
as almas sempre unidas
ligadas pelo elo do amor
que se chama coração!
Amo
de um amor simples
que não se explica
pois não tem explicação!
É pele
é corpo
suor
alma
olhar
reticências
e o silêncio cúmplice
de quem sabe o que quer dizer!

03 de maio de 2008

#658

No fim, é sempre eu e meu cálice companheiro
de uma bebida qualquer que encontro no armário.

Os dias passam como flashs,
disparando sem dó toda a dor
cuspindo um nó, que é falta de amor.

Mas amor tem-se aos montes
nas esquinas escuras
de toda a minha cidade obscura.

Um amor barato e vil
que se compra com níquel,
paga-se com papéis azuis,
verdes, rosas, amarelos.

Um verdadeiro mercado de carnes,
expostas à luz fraca da noite,
ainda exibidas já quando manhã.

Bocas se entregam à toa,
sem cumplicidade alguma,
sem nenhuma inocência,
sem paixão,
apenas o desejo carnal,
o instinto coletivo do sexo.

E sempre mais e tão mais fácil,
que perdem-se no tempo
toda tática de conquista,
a intimidade abre suas portas
para um qualquer
que cruza a frente de nossos quartos,
temos a porta sempre aberta.

O prazer fácil,
o desejo combinado com a lascívia,
amor banal, carnal.

O orgasmo solitário
esvaindo-se pelos poros sujos,
desperdiçado em camas desalojadas,
em um quarto qualquer solidão.

No fim, é sempre eu e meu cálice companheiro
de uma bebida qualquer que encontro no armário.

E quando alma embebida no álcool das amarguras,
deito-me uma vez mais sozinho
abraçado em meu travesseiro amigo,
solidão.

29 de abril de 2008

#657

O que me dá raiva
não é ter te deixado
ter te perdido
te abandonado.

O que me dá raiva
é que não dei tempo
para decorar o teu perfume
guarda-lo em mim
onde ninguém, nunca
possa daqui tirar.

O que me dá raiva
não é te saber de outro
em outras mãos
outra boca na tua.

O que me dá raiva
é que seria a minha
na tua boca, corpo, rainha,
se eu não tivesse fugido,
partido sem sentido,
sem rumo por aí.

O que me dá raiva,
amor meu que me faz viver
e que o medo me fez perder,
sou eu,
só eu.

26 de abril de 2008

#656

E eu fico aqui com meu café
e meu cigarro já pela metade.
As novas notícias são-me ditadas pelo rádio
e parecem tão banais
que uma cor amarelada as reveste.

Meus sonhos acinzentaram-se através da janela espessa,
e a chuva que cai já não pode me atingir.
Ontem eu consertei o meu teto,
mas minha cuca continua a mesma.

É o Sol, aquele ponto iluminado,
distante alguns infinitos
de minha vivência sombria.
Eu uso a luz do Sol como referência
da eternidade que nunca vou alcançar.

Minha cabeça começa a doer
e meu joelho acompanha o balançar sereno
de toda dor expressa em notas e acordes
da música que meus ouvidos não querem ouvir.

Mas eu ouço.

Eu teimo. Quero viver onde ninguém jamais viveu,
mas a solidão parece-me tão mais inóspita
quanto o quarto vazio em que aloco minha alma.
Ela está cansada.
Precisa de medicamentos caros
quase raros.
Mas não os acho nas gavetas,
estão por aí nas sarjetas,
nas ruas por onde passei,
nos bailes por onde andei,
nas festas que freqüentei.

Derramei todo meu remédio na noite sombria
e sei que quando chegar o dia,
o verei todo esparramado ao chão,
misturado em doses nulas ao meu coração.

E não há amores em farmácias!

25 de abril de 2008

#655

Move-se lenta a areia do tempo
e carrega em si toda gama de desejos meus.
Minhas lembranças
ainda carregadas do teu perfume,
do doce mel de tua boca
que beijei vezes tantas
e tamanha volúpia
são toda razão de meu sorrir
mesmo tanto tempo depois.

O adeus,
a dor dilacerante de olhares vivos
banhados em tristeza delirante,
afastando-se aos poucos,
o adeus.

Meus sonhos ali partindo
todos em teu corpo tenro
minhas lágrimas correndo
meu coração contigo indo.

E você se foi!

Desde então,
quando lágrimas as lembranças de nós dois,
toda a música de amor me faz lembrar você,
meu único e verdadeiro amor.

E foi o teu partir que me ensinou a prantear.

24 de abril de 2008

#654

De voz a razão perdida
de voz a dor e tudo o mais
aos berros implorou-se a culpa
confessou-se emudecido a inocência
a vil e torpe inocência da omissão
o remido tépido a correr
a crueldade e a paz
o vice-versa, ida e volta
a dupla passagem
o troco errado.

Do grito o escândalo amoroso
a confissão solitária
na sala repleta de almas vivas
e outras tantas invisíveis.

Uma razão irracional
um modo tolo de viver
a vida que não sentido
entendimento negativo
o tudo invertido.

E não se explica
o que não se entende.

Apenas continua sendo,
até onde for e existir.

24 de abril de 2008

#653

Tarde fria, chuva fina na minha janela
meu licor ainda intocado por sobre o rack
a mesa posta de um vazio sentimental sem tamanho.
Meu cigarro queima sozinho no cinzeiro fino
que compramos quando juntos viajamos.
Um semana inteira de amor
volúpia desejosa de bis
e outros tantos tris
desejo a flor da pele.
O olhar sempre dizendo tudo,
escancarando as vontades decifradas entre sorrisos,
amor de carne e atrito
e beijos molhados
de olhares apaixonados
a observar os corpos deslizando
um sobre o outro
tenro, terno, eternos.

Mas a eternidade não dura pra sempre
a felicidade não conhece o infinito.
Só a saudade sabe o eterno,
e escorre fria na chuva fina
que cai serena em minha tarde vazia.

E tudo o que eu queria era a sua voz nervosa
mandando que eu apague o cigarro.

Tudo o que eu queria era ter você aqui.
Queria você de volta.

23 de abril de 2008

#652

Passeio o pensamento febril
ao redor de minhas lembranças felizes
em torno de cada sorriso puro
de todo abraço e cada beijo
e são todas tuas
as minhas alegrias instantâneas.

Não posso mais negar a tua falta,
nem o quão dorido é tua ausência.

Meus versos se impregnaram de dor
e tudo, eu sei, são pedaços do amor
que pelo caminho da fuga que peguei
em pequenas migalhas memórias joguei.

Impregnaram de uma saudade tal
que hoje é meu viver mais sólido,
pois todo o resto são abstrações
todo o resto meras distrações.

Meu choro não se permite correr
pois é preciso voar para sobreviver.
E sigo fingindo um sorriso nulo
vivendo sozinho com meu coração burro.

Não posso mais negar a tua falta,
nem quão dorido é tua ausência,
pois são tuas as minhas alegrias
todos teus os desejos no fim dos dias.

Sou teu só e só sou.

22 de abril de 2008

#651

É saudade
o teu nome cravado
em meu coração apertado
que chora feito criança
na noite solitária e fria
sonhando da vida esperança
teu amor, teu beijo em mim, alegria.

É saudade
o teu nome cravado
e toda essa dor vazia
que me enche de um desespero
de uma carência vilipendiosa e absurda
de uma vontade que não se sabe
e se explica sem entender.

É toda saudade
essa vontade de te querer ainda mais
e mais e mais a cada segundo.

E nem mesmo sei explicar saudade
de ti que nunca tive pra mim
pois que sou teu em meus sonhos
e sei que talvez jamais minha de verdade.

23 de abril de 2008

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

#650

Já nos primeiros acordes
acordam todos os meus mais íntimos sentidos
despertam para a tua lembrança
de um sorriso sempre afável
braços receptivos
à espera de um sempre abraço
que te faça repousar por segundos
e fechar os olhos mágicos
que me hipnotizam quando me fitam
e me fazem curioso quando fechados
a imaginar um mundo todo seu
onde és rainha, semi-deusa,
onde todos dancem o ritmo que lhes convêm
e sejam todos assim felizes
como fazes feliz a todos
que se aninham a teu redor.

O primeiro acorde me desperta tua lembrança
e quando soa o fim da última nota
choro sozinho o tempo total de nossa música
que nem sabes nossa.

22 de abril de 2008

#649

Mudo toda configuração,
figura de fundo,
organizo agenda.

Apago velhas mensagens,
crio grupos de amigos,
jogo todos os chatos games.

Reconfiguro a tela inicial,
modifico a saudação,
abro e fecho o flip.

Confiro todo meu crédito,
ouço todas as opções,
volto a fechar o flip.

De súbito, volto tudo ao que era antes
mexo e remexo tudo em meu celular
na esperança que tu o faças tocar.

E eu sei que um dia ele vai tocar.
Eu sei que vai.

22 de abril de 2008

#648

Estou farto dessa minha solidão.
Um quase castigo que minh'alma me impõe
e toda uma distância faz-me acreditar real.
Essa dor que parece não acabar,
essa vontade insana de chorar,
de partir, fugir e não voltar.

Meus passos conduzem-me a uma tão desilusão amadora,
que mesmo meus olhos parecem não acreditar
e sinto tudo com o coração vazio
de um rio de lágrimas que me carrega cansado.

E estou cansado.

Farto, esgotado, sem forças para olhar o horizonte
que me cerca de maledicências torpes.
Preciso chegar ao fim,
mas o fim mostra-se tão mais distante
quanto maior o peso nas costas,
que não pára de aumentar.

Os céus enchem-se de nuvens enegrecidas
e uma tórrida tempestade cai sobre meu corpo dorido.
Não sei até quando suportar.
A chuva é ácida e abre as feridas ainda mal cicatrizadas,
escancara-as a toda sorte de abutres e outros seres
que vislumbram em mim o seu jantar.

Deito-me à sombra de uma árvore morta
e cansado, entrego-me a meu destino último.

Que tudo seja como eu sempre quis.

15 de abril de 2008

#647

Às vezes o tempo passa como não deveria,
assim vazio, sem razão de passar,
sem vontade e sem prazer algum.
Momentos em que o vento sopra
de um norte partido ao meio,
e tudo o que se quer é sentir o nada,
o deitar em cama de vime
esquecer o passado
vislumbrar o futuro
tão mais e mais sublime.
São dias em que a alegria fica perdida
pairando no ar
com a poeira de nossas amarguras
a fuligem de nossas desilusões.

Às vezes o tempo passa
e não há vantagem na sua passagem.
Ninguém vai me esperar,
ninguém ficará acordado a noite toda
aguardando minha chegada
guardando para mim o abraço da saudade,
do carinho desmedido
de quem só quer o que não vem.

E o tempo mesmo que não se saiba,
mesmo ignorante o rumo tomado
passa sem pausa alguma
e vamos sendo arrastados
por essa onda gigante
que nos leva onde não queremos,
onda chamada tempo,
que passa sempre sem medida
nessa nossa tresloucada vida.

Às vezes o tempo passa mudo,
é quando não tenho você aqui.

15 de abril de 2008

#646

Ali, sentado, solitário com suas muitas almas inquietas
ele desenha sonhos e faz surgir seus mundos.
Como se fosse uma nave
seu pensamento voa livre
ainda mais veloz e arrebatador
abastecido com o combustível feroz
de sua imaginação etílica.

Ali, sentado, solitário com suas muitas almas inquietas
ele desenha sonhos e faz surgir seus mundos.
A folha em branco
é todo um universo de possibilidades
e erros e acertos e vida
que são todos reticentes absurdos
transcritos em linguagem falada
um tal desprezo que não se sente.

Ali, sentado, solitário com suas muitas almas inquietas
ele desenha sonhos e faz surgir seus mundos.
E ali seu sol é sua luminária
contemplando de luz a superfície nula
de seus sonhos imaculados
que vão surgindo ao bel-prazer do acaso.
Ele não sente o mundo nascer,
apenas permanece ali, sentado,
solitário com suas todas almas inquietas
que constroem mundos paralelos
no inexistente paralelismo de seus versos.

Ele senta-se sobre as entrelinhas
e não entende uma só palavra do que tudo diz,
amor.

14 de abril de 2008

#645

Não mais quero o choro frio
que corre a alma invadida
fazendo rio por toda parte
transportando em si
o ônus de uma paixão não correspondida.

Não mais quero carregar em mim
as rusgas de um passado febril
a dor do adeus em um qualquer abril
o triste amor que dele só o fim.

Não mais o sofrimento solitário
as velhas recordações do que nunca foi
nem hoje a lágrima pelo aniversário
de outro ao sem ti, não mais nós dois.

Não mais quero a lágrima fria
do choro confuso que faz-se dor,
da noite quero o sonho do dia
do encontro, o que nunca tive, amor.

14 de abril de 2008

#644

Quando do dia sobra-me a noite triste
vejo na cama a sombra torpe
de tua imagem que lá não está,
talvez um sonho.

Talvez eu esteja além de mim solitário
e tudo me faça sentir solidão,
é toda essa paisagem nula
esse curto espaço
essa noite crua,
a chuva que bate no peito
amor que joguei para a Lua,
mas a Lua nunca responde.

Sinto-me como se fosse somente eu
e meus versos fazem-me companhia,
a única.

Talvez eu esteja sentimental demais
e tão mais carente.

E quem é que não está?
O amor...
o amor sumiu de mim.

14 de abril de 2008

#643

Fiz chorar um coração magoado
que na dor negou a vida
fez-se morte o que era amor
deixou os passos
na passarela sem rumo
a caminhada desmedida.

Meus olhos fizeram-se perdidos
a cativar do horizonte o mais distante
todo arrependimento ignóbil
que não pude notar em mim.

Fiz chorar de um peito preocupado
as lágrimas frias do meu rosto arrependido
e triste fiz-me perdão em preto e branco
triste dividi meu coração
o amor do peito que agora arranco.

E que sejam lembranças esquecidas
essa toda lágrima caída
que fez-me alma turva
chorosa e arrependida,
pois que não mais a farei cair
que do rosto a dona linda,
só quero o sublime sorrir.

14 de abril de 2008

#642

Dá-me um aperto no peito
um sufocamento
uma falta de ar.
Não consigo mais.
Sem ti não dá para continuar.
Tento repensar a vida
fazê-la plena sem teu olhar
sem tua mão na minha
o teu abraço quente
o teu beijo ardente
o meu amor no teu amor
e toda tentativa fracasa.

Pois quando fecho meu olhos de fim de noite
na minha cama nossa e hoje vazia
é tua imagem em sonho, felicidade,
e no triste amanhecer do dia,
abro os olhos e só me sei saudade.

E hoje então senti
que meio é o coração sem ti,
sem ti sou metade nula,
a mesma metade tua,
que chora olhando pra Lua.

15 de abril de 2008

#641

E não consigo acompanhar o tempo.
Quando penso noite, ainda a tarde raia nos céus.
O dia não chega.
A madrugada irrompe furtiva
por entre o almoço
de minha desarrumada racionalidade vazia.
Minutos que não sei para onde vão as horas
de dias corridos o antes que vai agora.
Pra onde vou depois daqui?
Meus passos se perdem,
estou sempre atrasado
mas chego um dia antes,
e alguns minutos depois.

Um toque me faz recolher
e sento sobre minhas pernas doridas
por sob o luar cadavérico
de minhas noites ensolaradas.

O tempo aqui passa sem princípio
é desmedido o tempo que passa
e tudo sem ti se vai ao precipício
aqui sem você é tudo sem graça.

10 de abril de 2008

#640

Preciso me perder!
Deixar o trem sair dos trilhos
e seguir o atalho obscuro,
não conhecer meus passos
e cair.

Repatriar a loucura
ingerir toda sorte de insanidades,
cheirar o desrumo,
injetar na veia vã
a adrenalina das calçadas
e dos sonos sem casa.

Quem em mim o céu estrelado acima
e a terra batida sob meu corpo.
Não quero luxo,
não quero lixo,
nem quero isso
que oferecem nas lojas.

Apenas a aventura nua
esquecer meu nome,
andar em círculos
e achar tudo novo
e maravilhoso.

Quero seguir em frente
amigo do mundo
sem ter onde ficar.
O que não posso é parar.
Deixa-me aqui no chão,
não me impeça de sonhar.

Todo dia o sol vem quente pra me ver
e acorda o mesmo desejo
que é ir lá pra me perder.

10 de abril de 2008

#639

Não é em vão
o choro que deixo cair
de meus olhos
astigmatas de uma tola razão.

Não é em vão
a cascata de lágrimas frias
que corre sem cessar
inundando meus dias e mais.

Não é em vão
a dor, a culpa, o amargo,
o apertar do peito
de um coração que não mais meu.

Não é em vão
esse sofrimento torpe
de um vilipêndio suicida
que sinto de ontem em diante.

Nenhuma lágrima é em vão,
nem mesmo a dor,
quando se sangra o coração
que chora por amor.

10 de abril de 2008

#638

Pois é,
a vida me faz como sou
assim maiores receios
e repleto dos mesmos defeitos.

Pois é,
que amar é viver em dor
eu que tanto sofri por amor
teimo em tentar e seguir.

Pois é,
sei-me parte de algo
só não entendo do quê,
mas sigo feliz, sem ter porquê.

E se de lágrimas
faz-se meu caminho deserto
pintado em cores murchas de saudade,
colho da flor os versos
faço dos versos cor
e pinto o caminho, amor,
vou-me em frente como der.

Pois é...

10 de abril de 2008

#637

Tentei uma, duas,
centenas de vezes.
Saí com velhos companheiros,
visitei antigos parceiros,
fiz papel de partideiro,
cheguei a frade, fui macumbeiro.

Tentei.

Passeei por tantos vales,
do Sol fui expectador fiel,
da Lua amante no céu.
Morei em pousadas,
dormi em calçadas,
posei em hotel.

Na vida fiz tudo,
fui ao fim do mundo,
fiz mil novos amigos.
Mas nada me completa,
pois aprendi no fim da meta,
que sem ter-te sempre comigo,
ser feliz eu não consigo.

Cansei de tentar.
De malas em mão,
vou de carona,
pra te buscar.

10 de abril de 2008

#636

É todo um amargor
um amar-te em dor
uma toda solidão
eu sozinho
em meu colchão.

As melodias são todas tristes
relembrando os bons momentos
que passaram,
que não voltam mais.

É todo um aperto
um sufoco
uma falta de ar.
E quando dou por mim estou fraco
deitado em silêncio me ponho a chorar.

Mesmo sem querer.

10 de abril de 2008

 

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